
Há quem acredite que a “formação acadêmica” só acontece dentro das quatro paredes de uma escola. Por favor, não há em mim a mínima intensão de desmerecer a importância da experiência acadêmica que o ensino formal oferece. Porém quero sua permissão para deixar de lado o “acadêmico” e focar na FORMAÇÃO.
Pretendo fazer isso lhe contanto brevemente a história de um homem que teve apenas três meses de ensino formal. Muito cedo ele precisou trocar o lápis pela enxada, o caderno pelo couro dos bois e o quadro negro pela bigorna. Foi ferreiro, vaqueiro e lavrador. A rotina dura poderia tê-lo transformado apenas em sobrevivente. Mas havia nele algo maior: uma curiosidade inquieta, uma paixão por aprender com a própria existência, e uma vontade incontida de fazer da vida poesia.
Ele mesmo resumiu em versos:
“Fui ferreiro, vaqueiro e lavrador
Que só tive três meses de escola
Sou artista, poeta e cantador
É o mundo meu grande professor
Que ensina as lições da minha vida
E foi cantando que eu encontrei guarida
Escrevendo também achei apoio
Meu celeiro poético não tem joio
E minha história é bastante conhecida”
A escola da vida não tem férias nem formatura. Mas nela, ele descobriu que cada luta podia ser verso, e cada dor, inspiração. Por muito tempo, ele acreditou ser apenas cantador e repentista. Até que um dia, diante de um poeta e um advogado, ouviu palavras que ecoaram como profecia:
“Sempre digo a Deus, muito obrigado
Por me dar esse dom de repentista
Mas um dia, em uma entrevista
Quando eu tava sendo interrogado,
Um poeta e um advogado
Me disseram “você tem mais valor
Que além de poeta e cantador
Tá trilhando o caminho da escrita
E por que é que você não acredita
Que você também é um escritor?”
Foi nesse momento que a vida abriu outra porta. E ele acreditou. E hoje, a imagem que você vê ilustrando essa coluna é a capa de seu primeiro livro, provando que sonhos não têm prazo de validade.
Não é apenas a história que lhe contei que nos mostra isso. A Bíblia está cheia de narrativas em que Deus escreve capítulos tardios e surpreendentes. Abraão ouviu a promessa de ser pai quando o tempo parecia dizer o contrário. Moisés foi chamado para libertar Israel já idoso e desacreditado. Ana, entre lágrimas e orações, viu Deus transformar esterilidade em esperança. Todos eles descobriram que a graça não se limita ao tempo do calendário humano.
O mesmo Deus que abriu mares também abre caminhos dentro da história pessoal de cada um, mostrando que nunca é tarde para recomeçar.
Mas aqui preciso fazer uma pausa para agradecer. Meu pai, o homem da história que lhe contei, meu pai poeta, meu pai cantador, meu pai escritor... Foi ele quem plantou em mim a semente da curiosidade. Essa inquietação que nele se transformou em poesia, em mim floresceu como paixão por aprender com a vida, com a fé e com as oportunidades. Se hoje escrevo, penso e procuro novos horizontes, é porque um homem formado na escola da vida me ensinou que o mundo é um livro aberto para quem ousa perguntar e observar.
A graça de Deus, que sustentou meu pai em seus versos e desafios, é a mesma que me move a não desperdiçar as páginas que ainda posso escrever.
Vivemos numa sociedade que idolatra a juventude e descarta os mais velhos como se eles não tivessem mais nada a oferecer. Que privilegia “famosos” e despreza verdadeiros artistas. Mas meu pai, com seu livro, confronta essa lógica cruel. Não sei quantas pessoas lerão seu livro pai, mas eu tive a alegria de ler, e de me lembrar de quantas vezes lhe vi debruçado sobre a mesa escrevendo meticulosamente (todas as letras tem o mesmo tamanho e formato, parece uma impressão). Lembrei também do pedido de mãe: “baixe o volume da televisão, seu pai está escrevendo”. Esse momento que o senhor vive mostra que sonhos não pertencem a uma faixa etária, mas ao coração de quem se abre para a vida, para aprender e para ensinar.
Na lógica do mundo, tudo tem prazo. Na lógica da graça, há sempre tempo. A juventude pode começar aos 20, mas também pode florescer aos 70. Porque a graça é eterna, e nela cada etapa da vida se torna fértil.
O livro de meu pai é mais do que versos em papel. É testemunho de esperança, é prova de que a vida pode escrever capítulos em qualquer tempo.
E eu, como filho, carrego essa herança. A vida tem graça porque ela me ensinou, através dele, que a curiosidade é a centelha dos sonhos, e que nenhum tempo é tarde demais para aprender, criar e realizar.
A vida tem graça, e isso basta!