
Arthur Schopenhauer observou algo desconfortavelmente verdadeiro sobre a condição humana.
Segundo ele, a vida oscila como um pêndulo entre dois extremos: a dor de desejar aquilo que não temos e o tédio de possuir aquilo que desejávamos.
Enquanto falta, ansiamos. Quando conquistamos, celebramos. Mas, pouco tempo depois, nos acostumamos. O carro novo vira apenas o carro.
A promoção tão esperada transforma-se em enfadonha rotina de trabalho. A casa dos sonhos torna-se apenas a casa. O celular que parecia extraordinário acaba ocupando o mesmo lugar que o anterior: o bolso.
Talvez uma das maiores ilusões da vida seja acreditar que a próxima conquista resolverá definitivamente nossa inquietação interior.
Vivemos rodeados por promessas de satisfação permanente. Basta comprar mais uma coisa, alcançar mais uma meta, subir mais um degrau. Mas a experiência insiste em nos ensinar outra lição. O coração humano parece possuir uma estranha capacidade de transformar bênçãos em normalidade banal.
Não demoramos para trocar a gratidão pela familiaridade, desprezo e, por mais surpreendente que pareça, pela reclamação.
Por isso, muitas pessoas vivem em uma corrida interminável. Não porque sejam necessariamente gananciosas, mas porque tentam escapar do vazio que surge depois de cada conquista. Aí é hora de o entusiasmo sair à procura de uma nova conquista e, às vezes, nessa tarefa pesada, ele larga mão do que lutou para alcançar. Afinal, é preciso deixar de lado glórias antigas, não posso cair na tentação de me conformar e tampouco de sentir-me feliz com as conquistas que já alcancei.
A questão talvez não seja apenas possuir.
Talvez seja possuir sozinho.
Há uma diferença profunda entre acumular e repartir. Acumular concentra valor em nós mesmos. Repartir multiplica significados.
Um macarrão instantâneo pode ser esquecido quando consumido sozinho, mas pode se tornar uma memória inesquecível quando compartilhado com amigos (ou com o amor da sua vida). Uma conquista profissional ganha outra dimensão quando abre portas para outras pessoas crescerem e se tornarem ainda mais eficientes e felizes. O conhecimento se torna mais valioso quando é ensinado. O recurso financeiro encontra propósito quando produz esperança na vida de alguém. (Efésios 4:28)
Curiosamente, a sabedoria bíblica parece apontar nessa direção.
Enquanto a cultura do consumo nos ensina a perguntar "o que mais eu posso ter?", as Escrituras frequentemente perguntam "para quem isso pode servir?".
O problema da riqueza nunca foi a riqueza. O problema é acreditar que ela termina em nós.
O problema do talento nunca foi o talento. O problema é enterrá-lo.
O problema das conquistas nunca foi conquistá-las. O problema é transformá-las em monumentos à própria importância.
Jesus contou que há mais felicidade em dar do que em receber. À primeira vista, essa afirmação parece contrariar a lógica humana. Mas talvez ela apenas revele uma verdade profunda sobre nossa natureza. Receber produz alegria momentânea. Compartilhar produz significado duradouro.
Aquilo que guardamos envelhece.
Aquilo que repartimos permanece.
Talvez Schopenhauer estivesse certo ao perceber o tédio que acompanha a posse. Mas ousadamente me arrisco a dizer que talvez ele não tenha enxergado toda a saída para o problema. O coração humano não foi criado apenas para adquirir. Foi criado para participar, servir e amar.
Quando uma conquista deixa de ser apenas minha e passa a beneficiar outras pessoas, ela deixa de ser um ponto final e se transforma em uma ponte.
E talvez seja justamente aí que a vida volte a ter graça.
Porque algumas das maiores alegrias não estão em alcançar algo para si mesmo, mas em descobrir quantas vidas podem ser alcançadas através daquilo que recebemos.
A verdadeira alegria não está em sentar-se sozinho à mesa da abundância, mas em abrir espaço para que outros também se assentem.
Há uma roupa e um anel preparados para cada mão, e por isso, a vida tem graça, e isso basta.