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Do cordeiro ao coelho

Quando símbolos mudam, o sentido também corre o risco de se perder.

Por: Hadriel Silva
03/04/2026 às 09h46 Atualizada em 05/04/2026 às 22h48
Do cordeiro ao coelho
Gerada por IA

A Páscoa sempre foi, antes de tudo, um convite à memória. Não uma memória qualquer, mas uma memória que transforma. Ao longo da história, ela carregou o peso de uma libertação, primeiro no êxodo, depois na cruz. Era o tempo de lembrar que a vida pode atravessar a morte e que a esperança não é ingenuidade, mas resistência.

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Mas, como toda celebração que atravessa séculos, a Páscoa também foi sendo reinterpretada. E, em algum momento do caminho, algo mudou. O cordeiro deu lugar ao coelho. O sacrifício cedeu espaço ao chocolate. E o que antes era contemplação tornou-se consumo.

Não se trata aqui de demonizar símbolos ou tradições culturais. O problema não é o coelho em si, mas o que ele representa quando ocupa o centro. Porque símbolos não são neutros, eles moldam aquilo que lembramos e, consequentemente, aquilo que nos tornamos.

O cordeiro, na tradição bíblica, nunca foi apenas um animal. Ele era sinal de substituição, de entrega, de redenção. Era o lembrete de que a liberdade tem um custo e de que o amor, quando levado às últimas consequências, se expressa em doação.

Ao olhar para a figura do cordeiro, somos confrontados com algo que a modernidade prefere evitar: a ideia de sacrifício. Vivemos em uma cultura que valoriza o conforto, a autonomia e a satisfação imediata. Falar de entrega, renúncia ou cruz parece quase um anacronismo.

Talvez por isso o coelho tenha encontrado tanto espaço. Ele é leve, simpático, comercialmente atraente. Não exige reflexão, não provoca desconforto, não interrompe a rotina. Ele entretém, mas não transforma.

E aqui está o ponto delicado: quando substituímos símbolos profundos por versões mais agradáveis, não estamos apenas mudando a estética da celebração, estamos alterando seu significado.

A sociedade contemporânea tem uma habilidade notável de suavizar aquilo que é essencialmente duro. Transformamos o sofrimento em espetáculo, a dor em conteúdo e, no caso da Páscoa, a cruz em decoração. O que era escândalo se torna acessório. O que era central se torna periférico.

Mas a mensagem original da Páscoa resiste.

Ela resiste porque não depende da forma como a celebramos, mas da verdade que carrega. O cordeiro continua sendo um símbolo de algo que não pode ser reduzido: a ideia de que o amor se doa, que a vida se entrega e que, paradoxalmente, é nessa entrega que ela se encontra.

Há, no entanto, um risco silencioso. Não o de esquecermos completamente a mensagem, mas o de diluí-la a ponto de ela já não nos afetar. De transformarmos a Páscoa em mais uma data agradável no calendário, sem perceber que ela foi, desde o início, tudo menos confortável.

A cruz não é um símbolo leve. Ela confronta. Ela expõe. Ela questiona nossas prioridades, nossos afetos e nossa maneira de viver. E talvez seja exatamente por isso que buscamos alternativas mais suaves.

O coelho não nos pergunta nada. O cordeiro, sim.

Ele nos pergunta sobre entrega em um mundo de retenção. Sobre amor em um contexto de utilidade. Sobre graça em uma lógica de mérito.

E talvez o maior desafio da Páscoa hoje não seja resgatar símbolos antigos, mas recuperar o sentido que eles apontam.

Não há problema em celebrar, em reunir a família, em compartilhar momentos leves. A fé nunca foi contra a alegria. Mas ela também nunca foi superficial. Há uma profundidade que precisa ser preservada, mesmo em meio às formas culturais que se transformam.

A pergunta que fica não é se devemos abandonar o coelho, mas se ainda conseguimos enxergar o cordeiro.

Se, em meio ao barulho das celebrações, ainda há espaço para o silêncio da contemplação.

Se, entre presentes e encontros, ainda nos permitimos lembrar que a Páscoa fala de algo maior do que nós.

Porque, no fim, toda celebração revela aquilo que valorizamos.
E toda substituição simbólica revela aquilo que estamos dispostos a esquecer.

Talvez seja hora de fazer um movimento simples, e profundamente contracultural: voltar ao centro.

Não necessariamente abandonando as formas, mas redescobrindo o significado.
Não rejeitando o que é leve, mas sem perder o que é essencial.

Porque a Páscoa não é apenas sobre renovação genérica ou recomeços vagos.
Ela é sobre redenção. Sobre graça. Sobre um amor que não recua diante do custo.

E esse amor ainda nos convida.

Em meio aos símbolos, às tradições e às mudanças culturais, a essência permanece disponível, esperando não ser apenas lembrada, mas vivida.

Talvez o verdadeiro sentido da Páscoa não esteja em escolher entre o cordeiro e o coelho, mas em decidir o que ocupa o centro da nossa memória.

Porque aquilo que colocamos no centro, inevitavelmente, molda a forma como vivemos.

E, quando o centro é a graça, até a memória se transforma em vida.

A VIDA TEM GRAÇA, E ISSO BASTA!

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Para quem talvez nem saiba ao certo o que é "graça", mas reconhece que há algo maior guiando a vida. Aqui, a linguagem é simples, o coração é aberto e a jornada é compartilhada.

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