
Escrevo hoje sobre minha especialidade! Especialista em perguntas, não em respostas.
Não como quem tem todas as respostas, e sim como quem conhece as perguntas que a ansiedade insiste em levantar. Sim, minha especialidade é ser ansioso.
Também conheço intimamente todos os medos que andam sorrateiramente de mãos dadas com essas perguntas. Vivo com o diagnóstico de TAG — Transtorno de Ansiedade Generalizada. Hoje eu vivo; antes eu apenas tinha, e às vezes, não vivia.
Aprendi que o TAG não me desqualifica para falar da graça. Pelo contrário: me torna alguém que precisa dela todos os dias, em cada detalhe, para não sucumbir ao peso das cobranças internas e externas, e das muitas incertezas da vida.
Marx, a crítica e a fé como ópio
Karl Marx disse certa vez que “a religião é o ópio do povo”. Essa frase, tantas vezes repetida sem o devido contexto, foi escrita como crítica à forma como a religião de sua época era usada para anestesiar as dores sociais, distraindo os pobres de sua miséria.
E é verdade: usada de modo distorcido, a fé pode virar alienação, apenas um calmante barato que faz suportar um mundo injusto sem transformá-lo.
Mas não é assim que encontro a fé. Ela não é ópio que entorpece, mas o respiro que nos desperta. Não é fuga da realidade, mas coragem para enfrentá-la. A religião que sufoca é caricatura; a fé que sustenta é graça.
É por isso que a Bíblia está repleta de homens e mulheres que viveram crises internas e que, diferente de algumas pessoas de hoje, não se esconderam atrás de discursos triunfalistas.
Esses relatos não são de super-heróis, mas de gente de carne e osso, como eu e você.
Ao encontrar essas pessoas, Deus não ofereceu ópio para esquecer a dor, mas presença para se sustentar em meio a ela.
Sinhá Vitória e a graça que ressignifica
E como para exemplos ruins reais, é melhor usar personagens fictícios, pois eles nunca aparecem para reclamar. Aqui estou eu e você, e apesar de todos os exemplos bons da Bíblia e da vida, continuamos como Sinhá Vitória, de Vidas Secas, bradando impropérios numa tentativa desesperada de nomear o vazio e a dor.
A graça nem sempre me impede de agir como Sinhá Vitória. Não, não sou mais forte do que ela, mas em Cristo tenho um fio de esperança que me segura quando tudo em mim grita desespero.
Onde Sinhá Vitória via apenas o inferno da existência, sou convidado a enxergar que ainda há vida, ainda há propósito, ainda há graça. (leiam Vidas Secas)
Fé: fuga ou encontro?
Para Marx, a fé era uma fuga. Para Cristo, a fé é um encontro. Não um entorpecente que nega a dor, mas uma presença que nos ajuda a atravessá-la. E nisso há uma diferença infinita, eterna.
Por isso digo: a vida tem graça. Não porque não exista ansiedade, mas porque, mesmo nela, Deus insiste em estar.
O fim não é o fim, porque a graça continua sendo maior.
A vida tem graça, e isso basta.