
A vida sem graça
Verdades precisam ser ditas. A essa altura, você que leu essa coluna mais de uma vez já percebeu que aqui, dizer que a vida perdeu a graça não é apenas falar de falta de humor ou leveza. É fundamentalmente falar da perda do próprio sentido.
Se a graça é Cristo como expressão da plenitude da divindade, como a Bíblia afirma (e eu acredito), então viver como se Ele não existisse é viver num vazio cíclico disfarçado de progresso.
No final do século XIX, Nietzsche declarou que “Deus está morto” e que nós o matamos. E por absurdo que isso possa parecer, quero convidar você, ainda que seja por um breve momento, a concordar com ele, e pensar: O que um cristão pode aprender com isso?
Ousadamente me proponho a sugerir um caminho. Me sinto obrigado a reconhecer o diagnóstico cultural feito por ele. Nietzsche percebeu que muitas pessoas naquela época viviam como se Deus não existisse, mesmo continuando religiosas de forma externa.
Isso nos desafia a pensar: será que nossa fé é apenas cultural, formatada pelo ambiente em que vivemos nos tornando apenas crentes nominais, ou nossa fé é realmente transformadora?
Lembre-se: Ele apontava para uma sociedade que se professava cristã, mas que já não se guiava por Deus e pelo que Ele ensinava, mas pela razão, pela técnica e pelo poder (grifo meu).
Deus havia sido retirado do centro. O que sobrou? Sobrou o homem sendo lançado ao abismo da própria autonomia, onde a liberdade se torna um fardo, e o futuro é como um corredor escuro, que nos leva para frente, mas que é nunca apresenta uma saída. Pois deixar ao homem a responsabilidade de cultivar seus limites morais é amarrá-lo a uma tarefa desafortunada e sem sucesso que dure mais de uma tentação.
Então pense comigo: se para Nietzsche Deus está morto e, sem Ele, o homem deveria criar seus próprios valores — o que o leva a um fardo insustentável — o que nos sobra?
Respondo: no fim, o que nos sobra é uma tremenda necessidade da existência de Deus. Sim, estou fazendo uma leitura a partir de um viés cristão, e isso não é novidade.
A Escritura apresenta Deus e, consequentemente, a graça, não como ideias vagas, mas como uma pessoa: Cristo.
“Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tito 2:11)
“Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade.” (Colossenses 2:9)
A existência de Deus e sua manifestação em Cristo é a diferença entre a faca que corta sem propósito e o pão partido que alimenta. Entre o vazio da existência repleta de nada e a esperança da vida abundante.
Sem Ele, até as conquistas mais brilhantes perdem sabor. Com Ele, até a simplicidade do pão e do vinho tornam-se símbolos de eternidade.
Viver sem Deus, ou ainda pior, viver professando crer nEle mas não regendo a vida pelo que Ele ensinou, é viver sob a sentença de Nietzsche — e sob a sentença da Bíblia quando ela diz em Tito 1:16:
“Afirmam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras; sendo abomináveis, desobedientes e reprovados para toda boa obra.”
Essa é a descrição de um mundo órfão, entregue às próprias forças.
Então, meu amigo, antes de tecer críticas ácidas ao irmão Nietzsche (algumas vezes sem nunca ter lido uma linha do que ele escreveu), pondere: será que eu, justamente eu, não sou aquele para quem ele olhou — ou olharia — antes de bombasticamente concluir:
“Deus está morto, e esse CRISTÃO o matou!”
Não há mais possibilidade de demovermos Nietzsche de suas ideias. No entanto, ainda existem centenas de replicadores de seu desdém “evangelístico”, nos desafiando dia a dia como que dizendo: “Se Deus não está morto, me prove.” Me mostre com sua vida que Deus está vivo.
Se a vida perdeu a graça, é porque perdemos o olhar para Ele — e o matamos. Mas quando o encontramos novamente, descobrimos que a graça sempre esteve ali, esperando nas frestas da vida.
A vida tem graça, e isso basta!
Gostaria de lhe dar a oportunidade (caso não tenha tido) de ler isso.
“Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já vou lhes contar! Nós o matamos — vocês e eu. Todos nós somos seus assassinos. Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte inteiro? O que fizemos quando desprendemos a terra de seu sol? Para onde ela se move agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? E para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existe ainda um alto e um baixo? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não ficou mais frio? Não anoitece eternamente? Não é preciso acender lanternas de manhã? Ouvimos ainda o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Nada sentimos da decomposição divina? — também os deuses se decompõem!
Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos!
Como nos consolar, a nós, assassinos entre assassinos? O mais sagrado e poderoso que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais — quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos lavar-nos? Que expiações, que jogos sagrados teremos de inventar? Não é demasiado grande para nós a grandeza deste feito? Não temos de nós mesmos nos tornar deuses para ao menos parecer dignos dele?”
(A Gaia Ciência, aforismo 125, “O Louco”)