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A arte de argumentar: por que o ensino de redação ainda foca no decoreba em vez do pensamento crítico

Porque textos prontos não convencem ninguém

Por: Eunice Herculano
30/09/2026 às 12h00 Atualizada em 30/09/2026 às 12h07
A arte de argumentar: por que o ensino de redação ainda foca no decoreba em vez do pensamento crítico

O ensino de redação no Brasil carrega uma herança estrutural voltada para a repetição mecânica. Em vez de formar cidadãos capazes de analisar criticamente a realidade, muitas escolas e cursos preparatórios ainda tratam a dissertação como uma fórmula matemática rígida. O aluno aprende a encaixar "esqueletos" de texto, a decorar alusões coringa que servem para qualquer tema e a seguir modelos engessados que garantem uma nota aceitável, mas anulam a autoria e a genuinidade do pensamento.

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Essa dependência do decoreba é alimentada por um sistema de exames que prioriza a padronização em larga escala. Quando o corretor busca critérios repetitivos e fórmulas prontas, o estudante rapidamente percebe que é mais seguro reproduzir repertórios mastigados do que arriscar uma reflexão original. O resultado é a proliferação de redações idênticas, repletas de filósofos citados de forma descontextualizada apenas para cumprir tabela, transformando a escrita em um exercício de memorização e não de argumentação real.

O verdadeiro ato de argumentar exige habilidade analítica, capacidade de conectar fatos históricos, sociais e econômicos com coerência, e clareza na defesa de um ponto de vista. Quando o ensino se distancia disso, ele falha em seu propósito central:

 Esvaziamento do senso crítico: O aluno decora modelos prontos e perde o hábito de questionar as engrenagens da sociedade sobre a qual está escrevendo.

 Insegurança diante do inédito: Temas de redação que exigem um olhar mais específico sobre o cotidiano causam pânico naqueles que só sabem replicar fórmulas padronizadas.

 Empobrecimento intelectual: Textos baseados em receitas de bolo carecem de organicidade, tornando o processo de leitura exaustivo e repetitivo para quem corrige.

Superar essa lógica exige uma mudança profunda na sala de aula, substituindo a cartilha de macetes pelo estímulo à leitura reflexiva e ao debate genuíno. Afinal, uma redação de excelência não nasce da engenharia mecânica de parágrafos, mas da clareza de um pensamento que aprendeu a pensar por si mesmo.

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